Sombra: o duplo que anda ao nosso lado
Em 1886, Robert Louis Stevenson publicou O médico e o monstro. Quase todo mundo conhece o enredo, mesmo sem ter lido o livro: um médico respeitado prepara uma mistura, bebe e dá passagem a outro homem, Edward Hyde, menor, mais jovem e sem nenhum escrúpulo. O detalhe que costuma passar despercebido é que Jekyll não inventa Hyde. Ele abre uma porta por onde Hyde já esperava. A literatura do século XIX está cheia desses duplos, e os mitos antigos também. Há algo na experiência humana que insiste em se apresentar como um outro que anda ao nosso lado. A psicologia complexa deu a esse outro um nome: Sombra.
A Biologia ajuda a entender por que esse outro parece agir sozinho. O neurocientista Joseph LeDoux mostrou que o cérebro responde ao que reconhece como ameaça por um caminho rápido, que passa pela amígdala antes de a consciência formular o porquê. O corpo se arma, o coração acelera, a resposta já está em curso quando a razão chega para explicar. Não é que exista um segundo homem dentro de nós. É que boa parte do que somos age antes de ser pensada, e o que não é pensado tende a voltar com a força de quem não foi consultado.
Do que ficou de fora ao que ganha rosto
Na Casa, já descrevemos a Sombra como aquilo que não coube na imagem que fazemos de nós. Este texto parte dessa soleira e dá um passo adiante: por que o que ficou de fora volta com rosto, voz e gestos, e não como uma lista de defeitos.
Jung tratou do tema de forma mais sistemática em Aion (1951), cujo segundo capítulo se chama justamente "A Sombra". Ali ele a descreve como um problema moral, que desafia a personalidade do eu como um todo: ninguém se dá conta da própria Sombra sem um esforço considerável, porque isso exige reconhecer como reais e presentes aspectos obscuros de si. A palavra "moral" importa. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade: aquilo que é meu, ainda que eu não o tenha escolhido, continua sendo meu.
Freud e o inquietante
Freud chegou à figura do duplo por outro caminho. Em "O inquietante" (1919), ele retoma o estudo de Otto Rank sobre o duplo, publicado em 1914, e observa que essa figura, que na origem funcionava como uma garantia contra a morte, acaba se tornando um prenúncio sinistro. Sua conclusão é conhecida: o inquietante não é o completamente estranho, mas algo antigo e familiar que se tornou estranho pelo recalque.
Aqui interessa o encontro entre as duas leituras. Para Freud, o duplo inquieta porque traz de volta o que foi afastado. Para Jung, a Sombra não se reduz ao que foi afastado: inclui também o que nunca chegou à consciência, e costuma aparecer personificada. Em O homem e seus símbolos (1964), Marie-Louise von Franz descreve como, nos sonhos, ela tende a surgir como uma figura do mesmo sexo de quem sonha. O conteúdo pode ser parecido; o que muda é a pergunta. Freud pergunta o que foi recalcado. Jung pergunta quem é esse outro e o que ele quer da personalidade inteira.
Penteu e o deus da família
A psique precisa de mitos? Um dos que melhor respondem a essa pergunta está em As Bacantes, de Eurípides, encenada pela primeira vez pouco depois da morte do autor, por volta de 405 a.C.
Penteu, jovem rei de Tebas, proíbe o culto de Dioniso, que chega à cidade como um estrangeiro de cabelos longos, seguido por mulheres em transe. Penteu quer ordem. Manda prender o forasteiro, ameaça as seguidoras, fala em nome da razão da cidade. O que ele se recusa a ver é que Dioniso não é estrangeiro: é seu primo, filho de Sêmele, irmã de sua mãe, Agave. O deus rejeitado é da família.
O desfecho é terrível. Dioniso convence Penteu a espiar as mênades no monte Citerão vestido de mulher, justamente o papel que ele desprezava. Descoberto, é despedaçado pelas mulheres, e quem volta para a cidade carregando sua cabeça, certa de ter caçado um leão, é a própria mãe. Agave só reconhece o filho quando volta a si.
Lido como imagem para pensar o presente, e não como receita, o mito diz algo preciso sobre a Sombra. Penteu não cai porque Dioniso é mais forte. Cai porque trata como estranho o que é parente, e porque recusa ao deus qualquer lugar no rito da cidade. O que não encontra forma ritual volta sem forma nenhuma.
A noite da obra
A alquimia oferece outra imagem. A obra alquímica começava pela nigredo, o enegrecimento da matéria, fase de decomposição que os textos descrevem com corvos, cadáveres e noites sem lua. Jung, em Psicologia e alquimia (1944), leu essas imagens como projeções de processos psíquicos, e a nigredo como o momento em que o que é obscuro na própria psique deixa de poder ser ignorado.
Os alquimistas não pulavam essa fase. Também não prometiam ouro no fim. Sabiam apenas que não havia outra porta de entrada.
O que integrar não quer dizer
Fala-se muito, hoje, em "abraçar o lado sombrio", como se fosse um exercício de fim de semana. Não é disso que Jung trata. Integrar a Sombra não é autorizar Hyde, nem chamar agressividade de autenticidade. É saber que essa capacidade existe em mim, deixar de entregá-la inteira ao outro e assumir a tarefa de decidir o que fazer com ela.
Também não é só lidar com o pior. Von Franz lembra que a Sombra também guarda valores de que a consciência precisa. Penso na firmeza que foi chamada de grosseria, no desejo que foi chamado de egoísmo, na tristeza que foi chamada de fraqueza. Às vezes o duplo carrega justamente o que falta ao eu. Nada disso acontece de uma vez, e nada disso tem garantia. É trabalho de escuta, lento, quase sempre acompanhado.
Uma pergunta para levar
Se o seu duplo tivesse um nome, qual seria? E o que ele faz que você nunca se permitiu fazer?
A relação entre o mito e a psique é um dos temas de A Aurora do Cosmos, meu próximo livro, que abre a coleção Homo sapiens naturalis: um chamado ao retorno. Ele está em escrita. Quem entra no Umbral, a carta mensal da Casa, acompanha o processo de perto.
Referências
EURÍPIDES. As Bacantes. Encenada por volta de 405 a.C.
FRANZ, Marie-Louise von. O processo de individuação. In: JUNG, C. G. (org.). O homem e seus símbolos (1964). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
FREUD, Sigmund. O inquietante (1919). In: Obras completas, v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo (1951). Obra Completa, v. 9/2. Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. Psicologia e alquimia (1944). Obra Completa, v. 12. Petrópolis: Vozes.
LEDOUX, Joseph. O cérebro emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional (1996). Rio de Janeiro: Objetiva.
RANK, Otto. O duplo (ensaio de 1914; livro de 1925).
STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro (1886).








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