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Projeção: o rosto desconhecido que vemos no outro

há 13 minutos
5 min de leitura

Há pessoas que nos irritam antes de abrirem a boca. Outras nos encantam com a mesma pressa, por motivos que não saberíamos explicar. Às vezes basta um gesto, um tom de voz, um jeito de entrar na sala. Com o tempo, descobrimos que a pessoa real era outra coisa, e fica a pergunta incômoda: o que, exatamente, eu estava vendo? A Psicologia Complexa tem uma palavra para isso. Chama-se projeção.

Ver já é ler

Este texto nasce do primeiro capítulo de A Aurora do Cosmos, na seção sobre o mito, o código e a forma. Ali, a ideia central vem da biologia: a informação de um organismo só se cumpre quando é lida em contexto. A sequência do DNA, sozinha, não decide nada; o tecido, o momento do desenvolvimento e o ambiente fazem dela um corpo. Com as histórias acontece algo parecido. Um mito não tem sentido fixo. Ele produz sentidos diferentes conforme quem escuta.

A percepção segue a mesma regra. No século XIX, Hermann von Helmholtz descreveu o ver como uma inferência inconsciente: o olho recebe pouco, e o resto é completado com o que já aprendemos. A neurociência atual retomou essa intuição. Anil Seth, em Being You (2021), descreve a percepção como uma previsão do cérebro que os sentidos vão corrigindo. Não vemos o mundo para depois interpretá-lo. Vemos já interpretando, com aquilo que trazemos.

A filosofia chegou perto disso por outro caminho. Ernst Cassirer, no Ensaio sobre o homem (1944), observou que a percepção mítica é fisionômica: antes de ver objetos, ela vê expressões, um mundo amigo ou hostil, acolhedor ou ameaçador. Nunca abandonamos inteiramente esse modo de ver. Ele não é defeito; é o que permite a um organismo agir depressa num ambiente incerto. Mas tem um custo. Aquilo que trazemos sem conhecer também entra no quadro.

O que Jung chamou de projeção

Em Tipos psicológicos (1921), Jung definiu a projeção como o deslocamento de um conteúdo subjetivo para um objeto. Em Aion (1951), deu o passo decisivo: não é o sujeito consciente que projeta, é o inconsciente. Por isso, diz ele, ninguém faz projeções; encontra-se com elas. E deixou uma imagem difícil de esquecer: as projeções transformam o mundo numa réplica do nosso próprio rosto desconhecido (§ 17).

O detalhe importa. Se a projeção fosse escolha, bastaria decidir parar. Como não é, ela quase sempre só se deixa perceber depois, e por um sinal: a desproporção. Quando a reação ao outro é intensa demais para o que ele de fato fez, a pergunta deixa de ser apenas sobre ele.

Projeta-se de tudo. A Sombra, aquilo que não coube na imagem que fazemos de nós e de que tratamos aqui na semana passada, costuma aparecer no colega insuportável. Mas também se projeta o que ainda não foi vivido de melhor. A admiração cega por alguém pode carregar uma capacidade nossa que ainda não encontrou lugar.

Freud como interlocutor

Freud usou a palavra antes. No caso Schreber (1911), descreveu a projeção como o caminho pelo qual uma percepção interna, afastada da consciência, retorna como se viesse de fora. Em Totem e tabu (1913), ampliou o alcance: a projeção não existe só para defender, aparece também onde não há conflito e participa da própria forma como o mundo exterior se apresenta a nós.

A Psicanálise dá a um fenômeno vizinho o nome de transferência. Jung via parentesco entre as duas coisas: nas conferências que deu na Clínica Tavistock, em Londres, em 1935, chamou a transferência de forma específica do processo mais geral da projeção. A diferença entre as escolas está menos no fenômeno do que na pergunta que se faz a ele. Freud pergunta de onde veio o afeto. Jung pergunta também para onde ele aponta: o que, no outro, está pedindo para ser reconhecido como meu.

Narciso diante da água

O mito grego tem uma cena exata para isso. Nas Metamorfoses, Ovídio conta que, quando Narciso nasceu, sua mãe perguntou ao adivinho Tirésias se o menino viveria muito. A resposta foi um enigma: sim, se não conhecer a si mesmo. A frase soa como o avesso do conselho gravado em Delfos e que Sócrates tomou como tarefa da filosofia. Anos depois, Narciso se inclina sobre uma fonte e se apaixona por um rosto que não reconhece como seu. Tenta alcançá-lo, e a imagem se desfaz na água.

Lido como imagem para pensar o presente, e não como diagnóstico, o mito mostra a projeção em estado puro: amar no outro algo que é nosso, sem saber que é nosso. Narciso não sofre por se amar demais. Sofre por não saber que é ele ali. Quando enfim reconhece o reflexo ("iste ego sum", sou eu), o que termina não é a dor. É o engano.

Recolher o que é nosso

Marie-Louise von Franz dedicou um livro inteiro ao tema, Projection and Re-collection in Jungian Psychology (1978). Ela descreve o recolhimento como um processo em etapas, que vai da certeza de que a imagem é o outro até a pergunta sobre de onde essa imagem vem. Nada disso se faz por decreto.

Recolher uma projeção não é deixar de sentir. Também não é concluir que o outro não tem nada a ver com a história: quase sempre há nele um ponto real onde a imagem se prende. É, antes, devolver ao outro o direito de ser quem é, e devolver a si mesmo o que estava lá fora. O que se recolhe não desaparece. Passa a pedir lugar dentro. Por isso esse trabalho é lento e raramente se faz sozinho. Faz parte do que Jung chamou de individuação: não ficar perfeito, mas ficar mais inteiro, com menos de si espalhado pelo mundo.

Uma pergunta para levar

Quem, na sua vida, provoca em você uma reação maior do que aquilo que fez? Se essa reação tivesse um rosto, de quem seria?

A relação entre o mito, a percepção e a psique é um dos temas de A Aurora do Cosmos, meu próximo livro, que abre a coleção Homo sapiens naturalis: um chamado ao retorno. Ele está em escrita.

Referências

CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem: introdução a uma filosofia da cultura humana (1944), cap. 7, "Mito e religião". São Paulo: WMF Martins Fontes, 3. ed., 2021, trad. Tomás Rosa Bueno.

FRANZ, Marie-Louise von. Projection and Re-collection in Jungian Psychology: Reflections of the Soul (1978). La Salle: Open Court, 1980. Edição brasileira: Reflexos da alma (editora e ano a verificar).

FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia (o caso Schreber) (1911), parte III. In: Obras completas, v. 10. São Paulo: Companhia das Letras (verificar volume).

FREUD, Sigmund. Totem e tabu (1913), cap. II, "O tabu e a ambivalência dos sentimentos". In: Obras completas, v. 11. São Paulo: Companhia das Letras (verificar página).

HELMHOLTZ, Hermann von. Handbuch der physiologischen Optik, v. 3 (1867), sobre a inferência inconsciente.

JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo (1951), cap. 2, "A Sombra", § 17. Obra Completa, v. 9/2. Petrópolis: Vozes.

JUNG, C. G. Tipos psicológicos (1921), cap. XI, "Definições", verbete "Projeção", § 783. Obra Completa, v. 6. Petrópolis: Vozes.

JUNG, C. G. Fundamentos de psicologia analítica (Conferências de Tavistock, 1935), conferência V, § 312. In: A vida simbólica, Obra Completa, v. 18/1. Petrópolis: Vozes.

OVÍDIO. Metamorfoses (8 d.C.), livro III, v. 339 a 510 (Narciso e Eco); a resposta de Tirésias no v. 348 e "iste ego sum" no v. 463.

SETH, Anil. Being You: A New Science of Consciousness (2021). Londres: Faber & Faber.

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