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Que você possa desfrutar com sabedoria e lucidez de qualquer conteúdo deste local que, para mim, é sagrado!

Onde está a loucura?

Se Malinowski (1884-1942) define o mito como um ingrediente vital da civilização, precisamos perguntar: quem retirou esse nutriente da nossa mesa? E o que nos obrigaram a engolir no lugar?


Acredito que a resposta reside na sequidão da "normalidade" técnica e na tentativa de silenciamento sistemático de tudo o que é intuitivo. Vamos analisar alguns pontos:


1. Nietzsche: a morte do Mito e o niilismo da Sanidade

Para Nietzsche, o declínio do Ocidente começa quando matamos a tragédia em nome da lógica. O poeta-rapsodo, sendo aquele que possuía o canal direto os deuses, foi substituído pelo "homem teórico", o escravo do conceito e da racionalidade.


  • A Loucura como Potência: O que o mundo moderno chama de loucura é, na verdade, a vida transbordando a margem estreita da moralidade. É a vontade de Poder que não aceita ser amestrada.


  • O Diagnóstico como Queda: Quando perdemos a capacidade de criar mitos, caímos no niilismo. Sem a "sabedoria prática" das narrativas ancestrais, a dor deixa de ser um rito de passagem e se torna apenas uma "disfunção". A loucura moderna é o grito de um organismo que se recusa a ser domesticado. A loucura é encaixotada em caixas com tarjas preta.

2. Foucault: o grande enclausuramento da Voz

Se Nietzsche lamenta a perda da força, Foucault disseca a arquitetura do controle. Ele demonstra que a "doença mental" foi inventada em um tribunal moral.


  • A Exclusão do Rapsodo: No mundo grego, a voz do rapsodo era autoridade; ele trazia o passado primordial para o presente como ética normalizadora de valores e virtudes. Na era moderna, essa voz foi emudecida. Foucault nos mostra que a Razão só conseguiu se estabelecer ao decidir que não queria mais conversar com a "Loucura" da época histórica.


  • O Manicômio Mental: O louco não é mais aquele que traz uma revelação; ele é o improdutivo, o problema a ser resolvido. O diagnóstico funciona como uma mordaça: ele retira a validade do que o sujeito diz, transformando sua fala em "sintoma".

3. A anatomia da resistência

Unindo os dois: a "loucura" habita o corpo que se nega a cumprir o script da biopolítica.


  • Para Foucault, somos corpos vigiados pela norma.

  • Para Nietzsche, somos seres que precisam de abismos para criar sentidos.

    A herança emocional ainda é o campo de batalha dessa guerra.


A herança emocional ainda é o campo de batalha dessa guerra. É o choque entre a nossa necessidade existencial de mitos (como alerta Malinowski) e a estrutura social que nos exige o "normal".


Quando o inconsciente tenta atravessar a mente e não encontra uma narrativa que o sustente, ele rasga a consciência e esbraveja. O médico chama de patologia, eu reconheço como uma revolta da alma contra o vazio.


Retomemos o Rapsodo?

A loucura não reside no delírio de quem enxerga além, mas na aridez de quem só enxerga o que está a um palmo do próprio nariz. Estar "são" em um mundo que nega o mito é a maior das alienações. Recorrer ao mito não é um retrocesso, é reivindicar o direito de dar nome aos próprios abismos, sem pedir permissão ao manual de psiquiatria.


Então, onde está a loucura?


Na escrita livre

A escrita livre é o exercício da subjetividade soberana. Quando Nietzsche escreve com o martelo, ele não está apenas citando os gregos; ele está destruindo as tábuas de valores para que o seu próprio pensamento possa se moldar.


  • Não cometamos o delírio de acreditar que a verdade só existe se estiver carimbada por uma instituição ou por citações da ABNT.

  • Como dizia Kierkegaard, a pior miséria é passar a vida inteira sem escolher quem se quer ser — e isso inclui a escolha das próprias palavras.

Nos novos pensadores

Recorrer ao passado é o que Jung chamaria de retorno ao arcaico para buscar a matéria-prima da Individuação. Os novos pensadores não voltam aos mitos para repeti-los como papagaios acadêmicos, mas para encontrar neles a gramática necessária para expressar ideias que são, sim, profundamente próprias e inéditas.


  • O embasamento é o solo, mas a semente é sua.

  • Sem a escrita livre, o conhecimento se torna um cemitério de citações.

Na loucura de pensar por si mesmo

Se confiar na própria percepção do mundo é ser "delirante", então o poeta-rapsodo era o maior dos loucos. Afinal, ele não citava bibliografias; ele anunciava o que via no invisível. A escrita livre é a tentativa de dar nome àquilo que os manuais técnicos não conseguem capturar. É o momento em que o autor se funde com a sua filosofia para criar algo que muitos temem: a autenticidade.



Assista ao vídeo que deu asas à minha reflexão:

A exclusão da loucura, com Eduardo Torre (Café Filosófico) 👇🏼



Até breve! 🌻


***

✍🏼 Por Rê Araújo

Filósofa da alma

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