Onde está a loucura?
- Renata Araújo
- há 19 horas
- 3 min de leitura
Se Malinowski (1884-1942) define o mito como um ingrediente vital da civilização, precisamos perguntar: quem retirou esse nutriente da nossa mesa? E o que nos obrigaram a engolir no lugar?
Acredito que a resposta reside na sequidão da "normalidade" técnica e na tentativa de silenciamento sistemático de tudo o que é intuitivo. Vamos analisar alguns pontos:
1. Nietzsche: a morte do Mito e o niilismo da Sanidade
Para Nietzsche, o declínio do Ocidente começa quando matamos a tragédia em nome da lógica. O poeta-rapsodo, sendo aquele que possuía o canal direto os deuses, foi substituído pelo "homem teórico", o escravo do conceito e da racionalidade.
A Loucura como Potência: O que o mundo moderno chama de loucura é, na verdade, a vida transbordando a margem estreita da moralidade. É a vontade de Poder que não aceita ser amestrada.
O Diagnóstico como Queda: Quando perdemos a capacidade de criar mitos, caímos no niilismo. Sem a "sabedoria prática" das narrativas ancestrais, a dor deixa de ser um rito de passagem e se torna apenas uma "disfunção". A loucura moderna é o grito de um organismo que se recusa a ser domesticado. A loucura é encaixotada em caixas com tarjas preta.
2. Foucault: o grande enclausuramento da Voz
Se Nietzsche lamenta a perda da força, Foucault disseca a arquitetura do controle. Ele demonstra que a "doença mental" foi inventada em um tribunal moral.
A Exclusão do Rapsodo: No mundo grego, a voz do rapsodo era autoridade; ele trazia o passado primordial para o presente como ética normalizadora de valores e virtudes. Na era moderna, essa voz foi emudecida. Foucault nos mostra que a Razão só conseguiu se estabelecer ao decidir que não queria mais conversar com a "Loucura" da época histórica.
O Manicômio Mental: O louco não é mais aquele que traz uma revelação; ele é o improdutivo, o problema a ser resolvido. O diagnóstico funciona como uma mordaça: ele retira a validade do que o sujeito diz, transformando sua fala em "sintoma".
3. A anatomia da resistência
Unindo os dois: a "loucura" habita o corpo que se nega a cumprir o script da biopolítica.
Para Foucault, somos corpos vigiados pela norma.
Para Nietzsche, somos seres que precisam de abismos para criar sentidos.
A herança emocional ainda é o campo de batalha dessa guerra.
A herança emocional ainda é o campo de batalha dessa guerra. É o choque entre a nossa necessidade existencial de mitos (como alerta Malinowski) e a estrutura social que nos exige o "normal".
Quando o inconsciente tenta atravessar a mente e não encontra uma narrativa que o sustente, ele rasga a consciência e esbraveja. O médico chama de patologia, eu reconheço como uma revolta da alma contra o vazio.
Retomemos o Rapsodo?
A loucura não reside no delírio de quem enxerga além, mas na aridez de quem só enxerga o que está a um palmo do próprio nariz. Estar "são" em um mundo que nega o mito é a maior das alienações. Recorrer ao mito não é um retrocesso, é reivindicar o direito de dar nome aos próprios abismos, sem pedir permissão ao manual de psiquiatria.
Então, onde está a loucura?
Na escrita livre
A escrita livre é o exercício da subjetividade soberana. Quando Nietzsche escreve com o martelo, ele não está apenas citando os gregos; ele está destruindo as tábuas de valores para que o seu próprio pensamento possa se moldar.
Não cometamos o delírio de acreditar que a verdade só existe se estiver carimbada por uma instituição ou por citações da ABNT.
Como dizia Kierkegaard, a pior miséria é passar a vida inteira sem escolher quem se quer ser — e isso inclui a escolha das próprias palavras.
Nos novos pensadores
Recorrer ao passado é o que Jung chamaria de retorno ao arcaico para buscar a matéria-prima da Individuação. Os novos pensadores não voltam aos mitos para repeti-los como papagaios acadêmicos, mas para encontrar neles a gramática necessária para expressar ideias que são, sim, profundamente próprias e inéditas.
O embasamento é o solo, mas a semente é sua.
Sem a escrita livre, o conhecimento se torna um cemitério de citações.
Na loucura de pensar por si mesmo
Se confiar na própria percepção do mundo é ser "delirante", então o poeta-rapsodo era o maior dos loucos. Afinal, ele não citava bibliografias; ele anunciava o que via no invisível. A escrita livre é a tentativa de dar nome àquilo que os manuais técnicos não conseguem capturar. É o momento em que o autor se funde com a sua filosofia para criar algo que muitos temem: a autenticidade.
Assista ao vídeo que deu asas à minha reflexão:
A exclusão da loucura, com Eduardo Torre (Café Filosófico) 👇🏼
Até breve! 🌻
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✍🏼 Por Rê Araújo
Filósofa da alma








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