O altar no deserto do autismo
- Renata Araújo
- há 2 dias
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Tenho refletido sobre a solitude não como um estado de graça poético, mas como uma necessidade biológica de sobrevivência.
Para mim, como autista, a solitude é o meu altar.
Estar fechada "dentro" de mim é o único lugar onde o volume do mundo finalmente abaixa e eu posso escutar a mim mesma sem a interferência do ruído sensorial que me exaure.
Gosto da minha companhia. Ela é vasta e segura. Nela não preciso de máscaras ou de decodificar as entrelinhas de um mundo que me adoece. Fechada em minha mente encontro o silêncio necessário para investigar as potências da vida e me sinto preenchida.
Mas a solidão habita o mesmo terreno.
A solidão, para a "pessoa demais" que sou, não nasce da falta de alguém; nasce da falta de ressonância. No autismo, a solidão é o eco de um deserto afetivo onde as pontes que lanço para o Outro retornam vazias. É a fadiga de tentar traduzir a minha densidade para quem prefere o raso.
Onde a solitude é o refúgio da sobrecarga, a solidão é o vácuo da incompreensão.
Sinto-me muito sozinha. Não por não saber estar bem comigo — eu sei, e prefiro isso a relações ineficazes e fúteis — mas porque a minha presença, que sustento com tanta dor e coragem, pesa. Pesa ser a única guardiã de um mundo interior que poucos se dispõem a conhecer sem tentar domesticar, reconfigurar, anular.
Sustentar minha própria presença é um ato radical de fidelidade.
É aceitar que haverá dias em que a solitude será o banquete que me salva, e noites em que a solidão será o cobertor frio da clareza.
O desafio aqui não é curar a solidão com qualquer companhia, mas ter a dignidade de habitar o próprio deserto até que ele floresça, no seu próprio tempo, com quem suportar a minha intensidade, ou não.
Até breve! 🌻
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✍🏼 Por Rê Araújo
Filósofa da alma








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