Contra a metafísica do descarte
- Renata Araújo
- 8 de abr.
- 2 min de leitura
Recentemente, ouvi que o amor pertence a "outro plano". Que o que vivemos aqui, entre humanos, seria apenas a "sombra" — a paixão como um subproduto de algo inalcançável. Sob essa ótica, o amor seria o fio que nos une ao divino, como uma escada que nos leva para fora deste mundo trevoso.
Nesta pequena frase, uma vastidão de questionamentos se abre:
- O amor é algo de outro plano?
- A paixão é uma projeção do amor que não conseguimos capturar?
- Se o amor não é desse plano, como ele "surge" e nos une ao divino?
E aqui, sugiro algumas reflexões.
O amor é algo de outro plano?
Bem, acredito que o amor não seja exílio. Projetar o amor para "outro plano" é uma tentativa de desencarnar o afeto. É dizer que o encontro real, com suas falhas e oscilações, não basta. Ao deslocar o sagrado para o além, retira-se a responsabilidade do aquém. Se o amor é divino e inalcançável, não preciso acolher o seu choro nem preciso sustentar o peso da sua presença. O amor de "outro plano" não exige manutenção; ele é o álibi perfeito para o descarte educado em uma relação.
A paixão é uma projeção do amor que não conseguimos capturar?
Tratar a paixão como "projeção do que não capturamos" é uma heresia biológica. Como explicaríamos a "paixão" de Cristo? Esse substantivo tem um porque de ter sido escolhido, e justamente para Jesus, na representação católica. A paixão é o próprio divino passando por uma fiação humana. Se a voltagem é alta, se o sistema aquece, isso não torna a eletricidade menos real. Chamar o sentir de "sombra" é uma tentativa de diminuir a importância do impacto. Não há nada a ser capturado "lá fora"; a paixão é a evidência de que estamos vivos e operantes na matéria.
Se o amor não é desse plano, como ele "surge" e nos une ao divino?
A Imanência do Inefável é o erro fundamental de supor que existe um "fora". Não estamos exilados de Deus tentando voltar para casa através de um amor abstrato. O divino não é algo separado por uma membrana de pureza; ele é a própria substância em que estamos mergulhados. Se o divino é o inefável das tradições esotéricas, ele não se alcança subindo escadas metafísicas, mas mergulhando na densidade do humano. O divino está na pressão das profundezas, na salinidade da lágrima e na coragem de permanecer quando tudo desmorona.
O amor que nos une ao divino não é aquele que nos retira do mundo, mas o que nos obriga a habitá-lo por inteiro. Quem usa o "espiritual" para fugir do "humano" não está em busca de Deus; está apenas em busca de um lugar onde não precise ser tocado pela dor do outro. Essa ideia, embora pareça mística, é uma ferramenta de higienização emocional. É o uso do inefável como álibi para a ausência.
Até breve! 🌻
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✍🏼 Por Rê Araújo
Filósofa da alma








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