A crise da meia-idade
- Renata Araújo
- há 18 horas
- 2 min de leitura
Viver no automático, cumprindo scripts de sucesso e adequação enquanto a alma definha por falta de escolha real.
Søren Kierkegaard nos alerta que a maioria de nós passa pela existência sem nunca, de fato, escolher quem quer ser.
Nós apenas reagimos.
Respondemos às demandas da família, do mercado e das expectativas alheias. O resultado disso é uma vida esteticamente correta, mas vazia. Passamos décadas sendo "personagens" de uma história que não escrevemos.
É aqui que a filosofia de Kierkegaard aperta a mão da psicologia de James Hollis em A Passagem do Meio.
Para Hollis, o que chamamos de crise da meia-idade não é uma psicopatologia, mas uma convocação. É o momento em que o "Ego da Primeira Metade da Vida", com todos os complexos adaptativos que construímos para sobreviver e ser aceitos, começa a rachar. A pressão torna-se insuportável porque a alma não aceita mais ser negligenciada em nome da segurança.
A "Passagem do Meio" é o hiato entre a identidade que herdamos e a identidade que precisamos forjar. É o ponto onde o alerta de Kierkegaard se torna um grito: se você não escolher a si mesmo agora, passará o resto dos seus dias como um impostor de si próprio.
Mergulhar nessa passagem exige a coragem de enfrentar a solidão gelada do vazio.
Para suportar esse momento, é inegociável a morte de quem achávamos que éramos para que o Self possa, finalmente, ocupar o lugar de direito. Não é um processo gentil. É uma quebra, uma cerâmica trincada que não pode mais ser colada para parecer nova, mas que pode ser transformada em algo mais valoroso.
Quando a pergunta “quem quero ser?” é ignorada, a existência se fragmenta. A pessoa cumpre tarefas e atinge metas, mas permanece distante de um projeto de vida assumido com autenticidade, o que alimenta sensação de vazio.
Viver com propósito não é encontrar um destino final iluminado, mas assumir a responsabilidade radical de cada escolha. É entender que a pior miséria não é o fracasso aos olhos do mundo, mas chegar ao fim da jornada e perceber que você nunca esteve presente na sua própria vida.
Questionar-se sempre sobre o sentido da própria vida, afasta o piloto automático e aproxima de escolhas que, mesmo imperfeitas, são assumidas com consciência.
Até breve! 🌻
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✍🏼 Por Rê Araújo
Filósofa da alm







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