A exclusão da Vida: onde perdemos o chão?
- Renata Araújo
- há 2 dias
- 2 min de leitura
Em uma aula potente no Café Filosófico, a filósofa Viviane Mosé nos convoca a uma tarefa urgente: distinguir a civilização da vida. Segundo Mosé, nós construímos um "edifício conceitual" — feito de metas, burocracias, normas morais e consumo — e passamos a acreditar que isso é a existência. Mas a vida, a vida real, é algo muito mais vasto, assustador e grandioso.
A Civilização como Covardia
Mosé argumenta que a nossa civilização é, em grande parte, um exercício de covardia. Criamos o pequeno, o medíocre e o mesquinho para não termos que lidar com os grandes desafios: a finitude, a deterioração do corpo e a imensidão do imponderável. Optamos por sofrer por "desafios mesquinhos" (como status, seguidores ou disputas vazias) porque a dor da vida real — aquela que nos esgarça a alma e amplia nosso contorno psíquico — é grande demais para suportarmos.
O Erro da Virtualidade sem Chão
Um dos pontos mais fascinantes da aula é a discussão sobre a virtualidade. Para Mosé, o erro não está na tecnologia ou no pensamento abstrato, mas em "perder o pé da terra". Quando perdemos o chão, perdemos a retroalimentação com o que é vivo.
Vivemos hoje em uma espécie de procrastinação da alma, onde giramos em círculos intelectuais e virtuais para evitar o risco da presença. O risco, diz ela, é o que nos mantém jovens; é onde o corpo aciona sua potência máxima. Quem nunca corre riscos torna-se impotente diante da própria existência.
A Vida como Fenômeno Estético
Baseando-se em Nietzsche, a filósofa define a vida como um "mar de forças" em constante mutação. Não há oposição entre vida e morte; a morte é a condição para que a vida continue se expandindo. O problema é que a nossa racionalidade, herdeira de Sócrates, tentou domesticar esse caos, criando um mundo "bonitinho e arrumadinho" que exclui o que é trágico e intenso.
Quando excluímos a dor, a perda e o erro, excluímos a própria vida. O resultado é uma sociedade doente, entupida de diagnósticos e medicações, que tenta silenciar com pílulas o que é, na verdade, um transbordamento de vida pedindo passagem.
O Sagrado sem Religião
Para Viviane, o sagrado é simplesmente o imenso, o excessivo. Recuperar a vida é recuperar a capacidade de se sentir "afetado" pelo mundo. A nossa inteligência deveria servir para desenvolver a sensibilidade estética: a capacidade de ver o pôr do sol e sentir que, embora a nossa dor continue, a grandeza da vida nos invade e nos justifica.
Até breve! 🌻
***
✍🏼 Por Rê Araújo
Filósofa da alma








Comentários