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Que você possa desfrutar com sabedoria e lucidez de qualquer conteúdo deste local que, para mim, é sagrado!

O que é mitopoiese

há 2 horas
3 min de leitura

Quando alguém diz "eu sempre fui a forte da família", está contando um mito. Não no sentido de mentira, mas no sentido mais antigo da palavra: uma história que organiza a experiência, distribui papéis e diz o que é possível. A essa fabricação de histórias que fundam o mundo dá-se o nome de mitopoiese, do grego mythopoiia.

A palavra antes da suspeita

Em Homero, mythos não queria dizer ficção. Era a palavra dita com autoridade, o discurso de quem fala diante da assembleia. A oposição entre mito e verdade veio depois, quando a filosofia grega reservou para o logos o lugar da demonstração. Herdamos essa suspeita, e por isso dizemos "é um mito" quando queremos dizer "é falso".

Mircea Eliade devolveu à palavra o seu peso. Para ele, o mito narra um acontecimento do tempo dos começos e explica como uma realidade passou a existir. O mito não descreve o mundo. Funda o mundo, e ao fundá-lo oferece um lugar a quem escuta.

Um mito não tem versão original

Claude Lévi-Strauss observou que um mito é feito do conjunto de todas as suas variantes. Cada narrador muda um detalhe, cada época desloca um acento, e o mito continua o mesmo justamente porque varia. Isso o aproxima mais de um organismo do que de um documento: ele se adapta, perde partes, ganha outras, e conserva uma estrutura reconhecível.

A mitopoiese, portanto, não terminou na Antiguidade. Ela opera nas religiões, na literatura, no cinema, nas histórias que as famílias contam sobre si mesmas e nas que cada pessoa conta sobre a própria vida.

O mito pessoal

A psicologia complexa dá a esse processo uma dimensão íntima. Jung percebeu que os mesmos motivos reaparecem em mitos antigos, sonhos e delírios de pessoas que nunca leram esses mitos: a grande mãe, o herói, a travessia noturna, o renascimento. Chamou de arquétipos essas formas típicas que a psique produz quando precisa dar sentido ao que vive.

O mito pessoal é o modo como cada um de nós organiza essas formas em uma história própria. "Eu sou a que aguenta." "Eu sou o que não dá certo." "Na minha família ninguém chora." Essas frases não descrevem fatos. Instituem um enredo, e o enredo passa a escolher por nós quais fatos importam.

O trabalho simbólico muitas vezes começa aí: quando essa história pode ser ouvida como história, e não como destino. Não se trata de destruir o mito pessoal, porque sem algum mito ninguém vive. Trata-se de reconhecer que ele foi escrito e, por isso, pode ganhar novos capítulos.

Por que os mitos voltam nas crises

Quando as explicações disponíveis deixam de dar conta do que acontece, a psique recorre ao seu repertório mais antigo de formas. Isso vale para uma pessoa diante de uma perda e para uma sociedade diante de uma ruptura. É um recurso adaptativo, e também um risco: o mesmo impulso que produz sentido pode produzir fanatismo, quando a imagem mítica é tomada ao pé da letra e deixa de ser símbolo para virar programa.

Paul Ricoeur escreveu que "o símbolo dá a pensar". O símbolo não substitui o pensamento; ele o provoca. A mitopoiese saudável é essa: contar histórias que fazem pensar, e não histórias que impedem de pensar.

Uma pergunta para levar

Qual é o mito que você conta sobre si? Quem escreveu a primeira versão dele, e quais capítulos ainda não foram escritos?

Este texto nasce do primeiro capítulo de A Aurora do Cosmos, volume que abre a coleção Homo sapiens naturalis, em escrita.

Para aprofundar

Mircea Eliade, Mito e realidade (1963).

Claude Lévi-Strauss, "A estrutura dos mitos", em Antropologia estrutural (1958).

C. G. Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Obra Completa, vol. 9/1).

Paul Ricoeur, A simbólica do mal (1960).

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